Reconstruindo o Setor Saúde: O Papel da Telemática

Renata G. Bushko

Traduzido do inglês por Renato M.E. Sabbatini

Revista Informédica, 2 (7): 17-18, 1994.


Nós não podemos mais fazer as coisas como antigamente... ", declarou recentemente um representante da Divisão de Sistemas de Informação Laboratorial da Associação Americana de Química Clínica. Ele estava se referindo à incapacidade do seu sistema computadorizado de permitir auditorias externas pelo comitê de credenciamento de instituições de saúde, o que é, atualmente, obrigatório por lei nos EUA, para que elas possam operar e serem pagas pelos seus serviços. Para poder fazer isso, ele teria que comprar um sistema totalmente novo para o laboratório de seu hospital, ou então pagar um milhão de dólares por uma modificação completa do mesmo. O problema descrito reflete o que está ocorrendo de fato na indústria de saúde nos EUA: pequenos hospitais comunitários e municipais "brigando" com sistemas de informatização hospitalar obsoletos, adquiridos na época em que dominava a filosofia dos sistemas fechados, ou seja, que eram conhecidos apenas por seus autores ou proprietários, e impossíveis de serem mudados. Pode ser que isso ainda não esteja ocorrendo em países como o Brasil, mas certamente o problema virá à tona, mais cedo ou mais tarde, quando as autoridades acordarem para o problema da qualidade no setor saúde, bem como para a necessidade de redução de seus vertiginosos custos.

Qual é a saída ? Como achar um novo caminho ?

A palavra-chave é RE-ENGENHARIA. Ela significa usar uma metodologia orientada por padrões internacionais, baseada em modelos realistas do cenário de saúde no País, adaptáveis às mudanças constantes. Em outras palavras, as instituições provedoras de assistência médica precisam urgentemente se adaptar ao vertiginoso progresso proporcionado pela Informática e pelas comunicações eletrônicas instantâneas, pela telemedicina e pelas mudanças contínuas e cada vez mais freqüentes na tecnologia e no sistema de saúde. Esta é uma revolução, que levará a uma rede internacional de intercâmbio puramente eletrônico, já existente em outras áreas da indústria e do comércio (bancos, por exemplo), e à qual a indústria de saúde precisa se juntar. Se quisermos percorrer este novo caminho, e fazer as coisas de maneira diferente, o foco da mudança passa a ser a satisfação dos seus usuários, que são os pacientes. Para isso, é necessário simplificar, padronizar e economizar. Todos os participantes estarão envolvidos na mudança: provedores, pagadores, legisladores, fornecedores, trabalhadores de saúde e pacientes.

Existe muita semelhança entre a capacidade de mudança no setor de saúde e o que ocorre nos organismos vivos. O processo de síntese de proteínas, codificado em nosso DNA, envolve uma seqüência com muitos passos. Um pequeno erro no processo de expressão de um gene pode causar uma doença fatal. Infelizmente, o processo de administração e execução dos serviços de saúde ainda não está "codificado" em um "DNA" aprovado internacionalmente. Deste modo, não podemos diferenciar com facilidade a assistência médica "saudável" da "doente", principalmente aquela que produz maus resultados do ponto de vista clínico, custos excessivos, baixo índice de satisfação dos usuários e confidencialidade médica ameaçada. É só ver o que está acontecendo com a precária assistência médica que muitos setores oferecem, tanto nos EUA quanto no Brasil, sem que ninguem consiga consertá-la !

Exatamente como um defeito genético pode causar o crescimento incontrolado das células em um tumor canceroso, o sistema atual de saúde, baseado em métodos ineficientes e obsoletos, causa o crescimento incontrolado de papelada, erros e custos. É um verdadeiro "câncer social". As organizações de assistência à saúde, as empresas fornecedoras, o governo, as associações nacionais e internacionais, os juristas, e até os pacientes, precisam começar a trabalhar em conjunto para bloquear o crescimento e destruir esse tumor.

Um aliado poderoso nessa tarefa será a maior utilização de intercâmbio eletrônico rápido de dados clínicos e administrativos. Para isso, evidentemente, são necessários padrões, caso contrário nada se resolve. Existem vários padrões sendo estudados internacionalmente: EDIFACT, HL7, ASTM, IEEE, etc. A reconstrução do sistema atual de saúde passa por uma grande mudança na forma com que trabalhamos uns com os outros (por exemplo, a maneira com que os patologistas se comunicam com os médicos que dão assistência primária; ou como os provedores de serviços se comunicam com os que pagam por eles), incluindo o aumento na velocidade e exatidão das informações trocadas.

O novo sistema precisa ser construído de tal maneira que permita uma constante adaptabilidade, sem prejudicar os direitos dos pacientes e a qualidade dos serviços prestados. Como resultado natural, poderá ser conseguida maior qualidade de assistência, maior satisfação por parte dos pacientes, e maiores economias de custos. A informatização baseada no intercâmbio eletrônico de dados (EDI, em inglês) permite diminuir o tempo e os erros envolvidos na referência e contra-referência de pacientes, na distribuição de resultados de exames laboratoriais e especializados, na admissão e alta de pacientes, etc. Permite também tornar menos estressante o local de trabalho e o relacionamento entre os pacientes e os trabalhadores de saúde, diminuir o desperdício e a multiplicação desnecessária de exames e procedimentos. A comunicação instantânea e generalizada entre todos os elementos do sistema de saúde (médicos, postos e centros de saúde, clínicas especializadas, hospitais, governo, seguradoras médicas, etc.) permitirá, ainda, a implementação de atividades difíceis de serem realizadas de outra forma, tais como programas sociais e médicos de larga escala para a prevenção de doenças (o que contribuirá mais ainda para diminuir os custos dos seguros médicos, atualmente voltados para a resolução de doenças, e não para a manutenção da saúde).

O setor de saúde precisa aprender com a experiência adquirida por outros setores de negócios neste aspecto. Ela mostra que a re-engenharia é bem feita quando se consegue montar modelos dos processos de trabalho atuais e futuros. Eles são diferentes para cada organização, e devem levar em conta variáveis estratégicas mais globais (mudanças econömicas, sociais, ambientais e tecnológicas). Uma das metodologias que vêm sendo mais utilizadas neste contexto é da engenharia do conhecimento (ferramentas de modelagem baseadas em Inteligência Artificial). A abordagem baseada em modelos tem repercussões nacionais e internacionais. A produção do "DNA da Assistência em Saúde" pelos corpos nacionais e internacionais de padronização, tais como o grupo de planificação de padrões de Informática em Saúde do ANSI (American National Standards Institute) precisa receber subsídios dos usuários, para saber que tipos de processos precisam ser padronizados, e com que prioridade.

Numerosos projetos de EDI em saúde estão sendo investigados e testados em todo o mundo, tais como o do Health Communications Network (EUA), St.Vincent's Hospital, (Australia), Norwich Health Authority (Reino Unido), Sniadecki Hospital (Polônia), SYNAPSE (Canadá), etc. Todos esses projetos têm como um dos seus objetivos principais o uso da telemática para repensar a maneira com que gerenciam e fornecem serviços de saúde à população. Por exemplo, as autoridades de saúde de Norwich , Inglaterra, esperam aumentar a qualidade dos serviços, ao mesmo tempo economizando mais de US$ 1 milhão, anualmente, apenas utilizando o EDI para o sistema de controle de estoque e de compra de suprimentos médicos. Essa quantia paga completamente o sistema computadorizado adquirido.


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Sobre a Autora

Renata Glowacka Bushko é PhD pelo MIT, e especialista em representação e modelagem do conhecimento, tendo trabalhado sob a orientação do Prof. Marvin Minski. Atualmente é a gerente do programa mundial de integração entre empresas para o setor de saúde da Digital Equipment Corporation , baseada em Massachussets, EUA. Ela é membro ativo de várias comissões internacionais de planejamento de padrões de dados em saúde, como o ANSI, e desenvolve métodos de EDI e de utilização da Informática para provocar mudanças organizacionais em saúde.
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