A Questão da Educação em Informática Médica

Gyorgyi M. Böhm

Disciplina de Informática Médica, Departamento de Patologia, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

Revista Informédica, 2(10): 19-20, 1994.


No momento em que a comunidade ligada à área de Saúde do país começa a discutir perspectivas para a aplicação mais ampla da Informática, ganha importância e premência a questão da educação e treinamento dos profissionais da Saúde quanto ao uso desta ferramenta[1]. A perspectiva de uma presença maciça de computadores no dia a dia do profissional de Saúde, em futuro próximo, e a consciência dos benefícios que a Informática pode trazer para a área, tornam inevitável que nosso país venha a seguir o caminho que já está sendo trilhado pelas nações mais desenvolvidas, neste sentido.

Apesar de não haver ainda um consenso mundial a respeito do currículo em Informática que deve ser fornecido nos diversos níveis de formação de profissionais de Saúde, várias instituições européias e americanas nos últimos 15 anos, tem procurado estabelecer padrões curriculares mínimos, na maioria das vezes através de disciplinas obrigatórias, para os estudantes de Medicina, Enfermagem, Odontologia, etc., no que tange ao aprendizado de Informática. Notórios são os exemplos propiciados pela Free University de Amsterdam, Holanda, com mais de 10 anos de experiência na área[2], e mais recentemente pela Harvard University, com seu revolucionário currículo, denominado New Pathway, que visa integrar a mais moderna tecnologia de processamento de informação ao aprendizado de Medicina[3].


Formação de Professores

Infelizmente, ainda são poucas as instituições de ensino de Saúde, no Brasil, que estariam hoje preparadas para dar esta formação, a nível de graduação ou pós-graduação, seja por problemas estruturais destas instituições, seja pela dificuldade em possuir corpo docente habilitado para tal tarefa. Se quisermos progredir nessa direção, no Brasil, precisamos urgentemente formar um quadro razoável de professores especialistas para esses cursos. Antes de tudo é necessário fazer uma avaliação cuidadosa dos recursos humanos necessários. Este estudo forçosamente terá que ser quantitativo e qualitativo. Que tipo de especialistas necessitamos, e em que prazo ? Penso que em relação ao prazo deveriamos ser modestos: cinco anos parecem-me mais do que suficientes. Quando falo em avaliação cuidadosa, e isto é muito importante, refiro-me a nós todos e não a um poder central que determinará tudo e sozinho.

Idealmente, este estudo de recursos humanos deve ser feito em termos de mercado de trabalho. Existe mercado para aquele profissional específico que pretendo formar ? Eis a pergunta que terá de estar sempre presente. Se não fizermos isto, teremos uma aventura penosa, como foi o caso dos biomédicos. Historicamente esta classe de profissionais foi imaginada na Escola Paulista de Medicina e na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. A idéia inicial até que era interessante: formar recursos humanos para as cadeiras básicas das faculdades de Medicina. E o que é que aconteceu? Brotaram cursos biomédicos no País inteiro, sem definição das competências profissionais e, portanto, com conseqüente imbricação desastrosa das mesmas com as dos farmacêuticos, biólogos e dos próprios médicos. Este capítulo infeliz da educação nacional serve como um alerta para todos nós.

Da mesma forma como há diversificação nos recursos humanos, o ensino da Informática também deverá trilhar caminhos variados. Considero qualquer tentativa de uniformização um desastre. Tomemos como exemplo as Faculdades de Medicina. Existem aquelas que não ensinam Informática, em outras é oferecida como curso optativo. Há ainda escolas que incluiram a Informática no elenco das disciplinas obrigatórias, como é o caso da Faculdade de Medicina da USP. Baseado em experiência pessoal, devo alertar para dois fatos: primeiro, as grandes dificuldades de sua aceitação pelo corpo didático das Faculdades de Medicina; segundo, o seu alto custo. Aconselho aproximar-se com pouca sede ao pote. Antevejo a situação em que, além do transplante cardíaco, estará na lista de prioridades de todas as 76 Faculdades de Medicina a instalação de um Centro de Informática. Não encorajemos esta tentação. Pedimos aos que comandam os destinos da educação que colaborem conosco. Estabeleçam prioridades, anunciem-nas em alto e bom som e não hesitem em dizer não a grupos incompetentes ou aqueles que não satisfazem as metas fixadas.


A Questão dos Recursos

É lógico que o governo deve ter a sua politica educacional e que favoreça programas especificos. Estes devem ser forçosamente semeados nos campos em que o retorno à sociedade brasileira for o mais fértil. Contudo, por favor, não esqueçam que a pesquisa acadêmica competente é de alta rentabilidade. Infelizmente, nossas empresas de Informática, tão bem protegidas pelas leis de reserva do mercado (por razões que não cabe discutir no momento) nada fazem e pouco contribuem para a pesquisa de ponta.

A "política nacional" tem uma tendência singular para distribuir recursos insuficientes a muitos, em vez de recursos adequados a programas garantidos. Parafraseando o Prof. Schwartzman, parece preferir a situação em que "tudo é muito democrático, muito participativo, muito engajado e tudo muito frustrante e inútil." A verdade é, que por falta de política bem definida que vise metas sociais concretas, desenvolvimento de tecnologia útil e pesquisa de ponta, os recursos existentes são pulverizados e o resultado é uma chuva rala, rosada, risonha mas que não molha, não fertiliza e não produz. Rapidamente, recordo que Flexner, quando incumbido de distribuir um milhão de dólares da Fundação Rockefeller, no inicio do século, deu tudo a uma única instituição: a Johns Hopkins Medical School, em Baltimore. Pouco tempo depois, responsável pelo destino de mais um milhão de dólares, não teve dúvidas: verificou o desempenho da Johns Hopkins e julgando-o bom, repetiu a dose. O exemplo é um pouco drástico e nenhuma "politica nacional" resistiria a isto, mas serve para enfatizar a orientação que deveríamos adotar. e, insisto, vamos parar com a desculpa de que não temos indicadores adequados daquilo que é terreno fértil e estéril. Todos são conhecidos: indice de custos, experiências passadas, desempenhos de produção de recursos humanos e de tecnologia, competitividade de mercado e, em matéria de produção cientifica, é só consultar os critérios existentes e já divulgados.


Referências

  1. Secretaria Especial de Informática: Plano Setorial de Informática em Saúde. Brasília: SEI/Ministério de Ciência e Tecnologia, 1988.
  2. van Bemmel, J.H.; Hasman, A.; Sollet, P.C.G.M. & Veth, F.L. - Training in Medical Informatics. Comput. Biomed. Res., 16: 414-432, 1983.
  3. Barnett, G.O.; Piggins, J.L.; Moore, G.; Foster, E.; Kozaczka, J. & Scott, J. - Information technology in a new curriculum - an experiment in medical education. In: Salamon, R.; Blum, B. & Jorgenson, M. (Eds.). MEDINFO 86, vol. 2: 883-886, 1986.
  4. Böhm, G.M. - The discipline of Medical Informatics. In: INFORMATICA 88, La Habana, Cuba, 1988.

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