Saúde e Tecnologia


Renato M.E. Sabbatini

Editor Científicorenato@sabbatini.com
Revista Informédica, 3(16): 4, 1995.


Nos últimos dez anos, o Brasil vem vivendo uma experiência trágica de crescente caos no financiamento do setor da saúde pública, com consequente queda da qualidade do atendimento, e o massacre diário de médicos e pacientes, vítimas, ambos, da iniquidade de um sistema que deveria promover a equalidade social e a saúde para todos, independente de nível econômico. Embora tenhamos tido nesse período governos democráticos e, pelo menos por intenção declarada, com preocupações sociais, o resultado é cada vez mais preocupante. E o pior é que não há solução fácil à vista.

O elemento fundamental da questão é o que o SUS (Sistema Unificado de Saúde), que é responsável pela maioria dos atendimentos médicos assistenciais nesse país de pobres, remunera muito abaixo do nível mínimo de manutenção de um atendimento de padrão razoável. No momento em que escrevo (outubro de 1995), uma consulta médica é remunerada em pouco mais de dois dólares, uma diária de UTI em 15 dólares, e uma cesariana em 35 dólares. São preços absolutamente impraticáveis, obscenos mesmo, no sentido em que corrompem todo o sistema médico e hospitalar além de qualquer possibilidade de redenção, e tornam deficitárias instituições centenárias, como as Santas Casas e outros hospitais filantrópicos, que não têm como escapar do SUS.

Onde entra o tema tecnologia, nesse cenário ? Nós, no Núcleo de Informática Biomédica da UNICAMP, e em outras instituições do gênero, traba-lhamos em um aspecto cada vez mais importante do setor saúde, que é a aplicação e o uso de computadores na Medicina, na Enfermagem, na Odontologia, etc. Não resta a menor sombra de dúvida, hoje, que a qualidade do atendimento, da documentação, da eficiência administrativa, etc., podem ser aumentadas em muito com o auxílio da Informática. Acontece, entretanto, que estamos ainda tremendamente atrasados nesse aspecto, no Brasil, pois a capacidade de investimento dos hospitais e clínicas (com as exceções de praxe, ou seja, a minoria que trabalha apenas com pacientes conveniados ou particulares) é muito reduzida. A adoção da Informática proporciona grande retorno para a instituição clínica, mas não no sentido de ganhar mais dinheiro (como a compra de um tomógrafo, por exemplo). Exige, entretanto, investimentos relativamente grandes no início.

Estamos, em conclusão, presos em um paradoxo clássico de país subdesenvolvido. A Informática Médica não vai progredir no Brasil (como muitas outras coisas em saúde), se continuarmos assim.


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