Consultoria

Revista Informédica, 2(10), 15, 1994


Creio que uma das maiores aplicações do computador na prática clínica consistirá, no futuro, na informatização do prontuário médico, que, em sua forma atual, é bastante precário quanto à legibilidade, facilidade de acesso, possibilidade de realizar pesquisas estatísticas, etc. Entretanto, sendo um iniciante em Informática aplicada à Medicina, não tenho idéia de como poderia ser implementado totalmente um prontuário eletrônico, ou seja, sem ncessidade do papel. Em tempo: isso seria possível, pela legislação brasileira ? (Dr. Wilson Campo, João Pessoa, PB)
Automatizar o prontuário clássico do paciente está muito longe de ser uma tarefa fácil. Na realidade, nenhum sistema inteiramente satisfatório e genérico foi inventado, e poucos hospitais (mesmo nos países mais desenvolvidos), podem se vangloriar de ter informatizado completamente o arquivo médico. Alguns empreendimentos de sucesso, como o conhecido sistema COSTAR (Computer-Stored Ambulatory Record), levaram muitos anos para serem desenvolvidos, e não são adotados universalmente. A razão para isto reside na própria natureza da informação médica, bem como em seu volume. Existem dados que podem ser capturados e armazenados segundo um formato relativamente fixo, e que são normalmente ocorrem em uma única instância para um determinado paciente (nome, data de nascimento, sexo, endereço, etc.); no entanto a maior dificuldade de informatização ocorre com os dados e informações que são difíceis de se formatar e/ou especificar com antecedência, ou que ocorrem em número extremamente variável de paciente para paciente: queixas, resultados de exames, avaliações diagnósticas e terapêuticas, gráficos, etc.). É para este tipo, também, que inexiste forma universalmente aceita de representação. As formas de organização existentes procuram basicamente solucionar este problema, que é específico da área médica. Assim, os modelos convencionais de estruturação de bancos de dados em computadores, tão úteis para outras áreas, se revelam deficientes para as aplicações médicas.

Outro problema crucial é o do volume de informação contido em um prontuário médico típico. É praticamente impossível colocar toda esta informação, mesmo que resumida e codificada, nos dispositivos de memória do computador. Um arquivo médico completo mesmo de um hospital ou clínica de proporções modestas, excederia, em número de caracteres de memória, a capacidade máxima de muitos computadores de grande porte atuais. Assim, apenas informações selecionadas são registradas no computador. Estas informações servirão unicamente para identificar, selecionar ou dar acesso a registros individuais, ou então para possibilitar análises estatísticas ao longo de todo o arquivo. Todas as informações restantes deverão ser mantidas no prontuário escrito, e usadas apenas quando necessárias. Podemos imaginar que o computador, neste caso, é a-penas um dispositivo de indexação rápida para o arquivo médico completo. Aliás, em relação à segunda parte de sua pergunta, mesmo que conseguíssemos transcrever totalmente a informação do prontuário do paciente para uma forma computadorizada, enfrentariamos a paradoxal situação de não podermos eliminar o arquivo escrito: na maioria dos países a lei não o permite, por um prazo que excede muitas décadas, mesmo após a morte do paciente !

Todas as considerações acima assumem uma importância ainda maior quando se trata de implementar a base de dados clínicos em microcomputadores, que, por definição, tem recursos mais restritivos de memória e velocidade. Algumas soluções técnicas adequadas, entretanto, permitem a implementação de arquivos médicos razoavelmente completos em microcomputadores:

Não se deve subestimar as dificuldades na implementação de sistemas de arquivo médico em microcomputadores. Sem o planejamento cuidadoso e criterioso na escolha de hardware e software, e, principalmente, quanto aos aspectos humanos e operacionais de implementação do sistema, os resultados podem variar de insatisfatórios a catastróficos É preferível primeiro melhorar e sistematizar o sistema manual presente de arquivamento utilizado na clínica, antes de implementar o computador. Isto envolve desde a utilização de fichas padronizadas, que facilitem a transição para a automação, até a reestruturação das rotinas internas. Se um sistema de software pronto já tiver sido selecionado, isto envolve também um grande esforço de readaptação. Em segundo lugar, deve-se dar consideração aos aspectos de futura expansão do sistema. É inadequado 'apostar' em um sistema de menor custo, mas que tem uma capacidade inexpansível a baixo custo, e que mal dá para a quantidade presente de dados. É preferível fazer um investimento inicial maior, usando discos de maior capacidade e máquinas mais velozes, uma vez que, se o sistema funcionar a contento, é bastante provável que a demanda por mais espaço em memória venha a se acelerar além do previsto (sem contar que, na maioria das vezes o sistema de registro médico irá competir, em tempo de utilização e frequencia de acesso, com outras aplicações no mesmo computador, como a gestão administrativa financeira da clínica).

Finalmente, não se deve negligenciar o aspecto da confidencialidade e segurança dos dados. Naturalmente, o aspecto da confidencialidade no computadoré idêntico ao de um arquivo manual, em consultórios individuais e pequenas clínicas. Em organizações maiores, entretanto, principalmente se muitas pessoas diferentes tem acesso ao computador, ou se este é interligado a outros através de redes locais ou externas, aumenta exponencialmente o perigo da perda, uso fraudulento ou modificação involuntária de dados preciosos, e medidas adequadas devem ser tomadas.


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